05/09/2008

Estréia nos cinemas "Linha de Passe"

Como parar de fumarAssisti aos oito filmes de Walter Salles – três deles co-dirigido por Daniela Thomas. Fiquei surpresa com Terra Estrangeira, me encantei (como o país inteiro) ao ver Central do Brasil, considerei Abril Despedaçado pura poesia, com aquela fotografia árida e bonita ao mesmo tempo... mas não tenho dúvida em eleger Linha de Passe, que estreou nesta sexta (5/09), o melhor de todos. Walter Salles e Daniela Thomas estão maduros, o elenco afiado, a linguagem tem o tom da verdade. Na história da família de Cleusa (Sandra Corveloni) há autenticidade, muita cumplicidade e afeto. O respeito entre pessoas que se gostam e se perdoam está na tela -- é o retrato de uma família, no melhor sentido da palavra.

Linha de Passe acompanha a rotina da empregada doméstica Cleusa, mulher parecida com outras 18,5 milhões de brasileiras que são chefes de família e criam os filhos sozinhas – os amores sempre vão embora, as crianças ficam para comer, vestir, estudar... tudo por conta delas. O perfil de mulher chefe-da-casa é comum no país. Em 10 anos (de 1996 a 2006), o número de mulheres sem parceiros que carregam o mundo nas costas, como Cleusa, cresceu 79%, nas contas do IBGE.

Em cena, está Cleusa, à beira da pia cheia de louças, grávida do quinto filho. Ela é um tipo resolvido e tem uma paixão louca pelo Corinthians – o futebol faz parte do coração da doméstica e do filho Dario (Vinícius de Oliveira). Às vésperas de completar 18 anos, o garoto vê por um fio a chance de passar na “peneira” de um time de futebol. Todas as esperanças de redenção da casa estão depositadas no meia-armador que sonha ser contratado como craque de um grande clube.

Dario não é uma mera invenção de ficcionistas: o roteiro bebe na fonte do documentário Futebol, de João Salles, irmão do diretor. Ele mostra a disputa desesperada de milhares de adolescentes que sofrem todo tipo de humilhação nas filas do teste – os garotos fazem qualquer negócio para se destacar diante dos olheiros que podem transformá-los em Ronaldinho ou Robinho.

O Brasil da periferia está encarnado também no motoboy, filho mais velho de Cleusa, que vacila entre seguir na mesmice de motoboy ou virar um motoboy bandido. O outro filho, o segundo,  é a representação da desesperança, recorrendo ao torpor da religião na tentativa de aplacar a falta de oportunidades. O cenário dele é uma igreja crente que promete fazer paraplégicos andar.

O caçula – único negro da casa – nunca viu o pai. Tudo o que sabe é que o homem não foi casado com a mãe, era negro e motorista de ônibus. O garoto investe toda sua energia para identificá-lo. Essa história me trouxe à memória uma notícia que li no jornal, anos atrás. Walter Salles confessou que também havia lido a mesma notícia – um texto do jornalista Ricardo Kotscho – e se inspirou nela para a criação do caçulinha da família. O texto relatava que um menino de 12 anos, de tanto freqüentar garagens de empresa de ônibus no rastro do pai, acabou aprendendo a dirigir. Ele percorreu 80 quilômetros ao volante. Ao ser detido e enviado a FEBEM declarou que só queria uma coisa: encontrar o aquele que abandonara a família alguns anos antes.

Linha de Passe é também um filme delicado, um momento magistral que deu a Sandra Corveloni a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Por trás do brilhante desempenho da atriz não está apenas um eficiente trabalho de preparação de atores. Sandra faz parte da nação que emerge das dificuldades. Como bóia-fria, ela saiu da zona rural do Mato Grosso do Sul diretamente para o centro urbano de São Paulo. No mesmo caminhão viajavam os irmãos, o pai que virou operário e a mãe que virou doméstica sem carteira assinada. Sandra sabe o que está interpretando e sabe também como é viver num  grupo sempre em busca de identidade – suas raízes estão na maior categoria profissional do país, a das empregadas domésticas.

A estréia do filme ocorreu no mesmo dia em que o BCG (The Boston Consulting) classificou o Brasil entre os países com número de milionários em crescimento: em dois anos, passamos a contar 90 mil novos milionários. Ao todo, eles somam 220 mil patrícios donos de 1,2 trilhão de dólares – apenas no mercado financeiro. Não se pode ler os dados como sinal de mais gente saindo da miséria, claro. A leitura obrigatória é a de que o abismo entre os que têm muito e os que não têm nada, como a família de Cleusa, é cada vez mais largo e profundo.

Patrícia Zaidan
Foto: cena do filme, DanielaThomas, divulgação