18/12/2008

A arte que veio da rua

Nina PandolfoAos 31 anos, Nina Pandolfo é a mais bem sucedida grafiteira do Brasil. Casada com Otávio Pandolfo, da dupla Os Gêmeos - também grafiteiros de renome internacional - a artista que pintava muros em São Paulo agora expõe suas obras mundo afora. Veja a entrevista que ela concedeu à repórter Gisela Blanco:


Como você virou grafiteira?
Comecei pintando nas telas e passei para os muros. Hoje faço os dois, e vendo muitos quadros em galerias. Na tela, posso ousar mais, misturando materiais, fazendo esculturas e colagens. Nos muros, uso apenas grafite, mas tenho um espaço enorme para compor e sei que o desenho vai ficar ali exposto para todo mundo. Acredito que a arte tem que ser democrática e não pretendo nunca parar de pintar nas ruas. O que me deu mais destaque foi minha arte urbana, que nunca imaginei que fosse fazer tanto sucesso.  

Esse mês você está apresentado sua primeira exposição individual no exterior. Por que suas obras fazem tanto sucesso lá fora?
Nos Estados Unidos e na Europa, o grafite é mais aceito como expressão artística. Este mês, exponho na Índia, um país em que o grafite praticamente não existe. Precisamos até importar as latas de tinta aqui do Brasil, porque lá não tem. O convite partiu de um galerista muito importante que conheceu meu trabalho no exterior. Meu nome também foi incluído no livro “Graffiti Woman” (2006), da editora americana Harry N. Abrams, Inc, que reúne obras de cerca de 120 grafiteiras de destaque no mundo.

Grafite de Nina Pandolfo em muro de São PauloE no Brasil?
Aqui, estamos ganhando espaço aos poucos. Este ano, fiz uma exposição na Galeria Leme, em São Paulo, e todas as minhas obras foram vendidas na primeira semana. Recentemente, grafitei também a casa de Eduardo Leme, dono da galeria, que foi projetada pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha (ganhador, em 2006, do prêmio Pritzker, o mais importante da arquitetura mundial). Os dois me deram carta branca para escolher a parede que iria pintar, dentro ou fora da casa.


Em 2006, você grafitou o castelo de Kelburn na Escócia. Como foi a experiência?
Foi um projeto encomendado pelos filhos do lorde de Glasgow, dono do castelo de mais de 800 anos. Eu e meu amigo Nunca, meu marido Otávio e meu cunhado Gustavo passamos um mês vivendo no castelo e pintando uma fachada. No início, contrariado, o lorde disse que a pintura poderia ficar lá por apenas dois meses. Mas quando viu o resultado, se surpreendeu, disse que aquilo era uma belíssima forma de arte e que não ia apagar de jeito nenhum. Agora está procurando patrocínio para pintarmos o outro lado do castelo.


Como é ser casada com um dos grafiteiros mais famosos do Brasil?
Conheci meu marido Otávio e o Gustavo, irmão dele, em uma oficina de grafite, quando éramos adolescentes. Estamos juntos há 15 anos (7 anos de casamento) e somos muito bem resolvidos profissionalmente. Nunca me senti à sombra dele. Fazemos vários trabalhos juntos, mas temos traços diferentes e meu estilo é muito bem definido, minhas obras são bem femininas. Faço sempre bonecas e bichos redondos, de olhos grandes. Todos dizem que minhas personagens são a minha cara. Transmitem uma certa doçura, mas também rebeldia. Quando desenho nos muros, tento deixar a cidade mais bonita e colorida, mas também quero fazer as pessoas pensarem. Gosto de fazer críticas sociais. Não me encaixo naquele estereótipo do grafiteiro que gosta de hip hop e vive à margem da sociedade. Sou evangélica e adoro música brasileira.

Fotos Chris Parente/Produção Sylvia Radovan/Cabelo e maquiagem Erick Santos, BLZ


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