16/07/2009

Abra as suas asas

Crise, crise, crise... é só o que a gente lê nos jornais, vê na televisão, ouve amigos falarem. E a angústia de ver nosso suado dinheirinho poupado derretendo em investimentos que até bem pouco tempo só nos davam alegrias? Eu, você e o resto do mundo tentamos entender o que está acontecendo às vésperas do Natal, o momento ser generoso e mão aberta. Eu adoro dar presentes vou continuar procurando alguma coisa especial para cada pessoa que amo. É claro que todos nós vamos consumir com consciência, sem gastar mais do que podemos, sem fazer dívidas impagáveis.

Momentos de crise são ameaçadores, mas também provocam reflexões saudáveis. Neste Natal, quero fazer um balanço do que é verdadeiramente essencial. Entre a receita de peru que escolhi para a ceia e o presente que comprei para minha filha, estão os laços de família, estes, sim, um bem que nenhuma crise financeira pode me tirar. Ao escolher uma lembrancinha para uma amiga querida, o mais importante não vai ser o presente em si, mas o que quero dizer a ela no cartão que vai junto. Há quanto tempo não falo da saudade de nossas risadas, tão raras hoje na correria do dia a dia?

Para mim, o Natal da crise vai virar o Natal da união. Vamos transformar o aperto financeiro em um abraço apertado.

Mas, para ter em mente o que realmente importa – amor e amizade –, busquei inspiração em um delicioso texto da escritora Paula Taitelbaum sobre anjos. Não, não pense que eu saí da realidade, voando por aí. Eles são mais do que reais, aparecem em várias filosofias e religiões, estão presentes na imaginação coletiva e nos sopram mensagens por meio de nossa intuição. Desde o início dos tempos, os anjos representam tudo que é essencial: os sentimentos de fé, bondade, proteção e afeto. Neste Natal, invoque os anjos. Mas seja você também um anjo para alguém que precisa de ajuda. E abra as suas amorosas asas em volta de todas as pessoas queridas.

Marcia Neder
Dezembro 2008


16/07/2009

A bênção, Dona Cano

Gostaria de ter ido pedir a sua bênção pessoalmente, em Santo Amaro da Purificação, como fazem tantas pessoas que a senhora recebe com disposição e carinho, sentada à porta de casa. Todos, aqui na redação, morreram de inveja da editora Virgínia Lamarco, que teve o privilégio de ir até aí buscar de suas mãos as receitas que fazem a alegria de toda a família. E ter podido trazer para nossas leitoras, no suplemento COMIDA&BEBIDA, os segredos do doce de groselha, que Maria Bethânia, Caetano e seus outros seis filhos adoram.

Sua filha Mabel teve uma grande ideia ao registrar em livro as delícias que a senhora sempre preparou sem se preocupar m listar ou pesar os ingredientes. O sal, então, é um dom, como a senhora mesma lembrou ao seu filho Roberto quando ele pediu uma receita. Saborosa história que acabou ando nome ao livro. Além do dom do sal, muito mais gostaríamos de aprender com a sua sabedoria, aprimorada por 101 anos de vida e distribuída com tanta generosidade.

Virgínia voltou encantada com o que viu e ouviu. Foi tomada por emoção que nos contou do entra e sai permanente, as portas sempre abertas, do burburinho cheio de ida. Que cada um que entra sempre passa pela cozinha faz alguma coisa, dá uma mexida em alguma panela, acrescenta algum tempero. Que a comida, nessa morada repleta de oratórios, habitada por tantos santos, é uma verdadeira comunhão. Que a coisa mais importante que ouviu da senhora foi o elogio à solidariedade. Que só ajudando os outros receberemos coisas boas em troca.

Obrigada, Dona Canô, por me trazer doces recordações a minha avó querida, igualmente pequenina e forte, capaz e unir a todos em torno da sua cadeira de balanço, ouvindo as histórias que sua prodigiosa memória resgatava mesmo aos 104 anos. Assim como a senhora, ela fez a palavra matriarca equivaler a um título de nobreza.

Obrigada, Dona Canô, por nos ensinar que o sal é um dom. Mas também por nos lembrar, sobretudo em era tão turbulenta, que a simplicidade e os valores da família são o verdadeiro tempero da felicidade. A bênção, Dona Canô.

Marcia Neder
Novembro 2008


16/07/2009

Meu tempo é hoje

Aniversários são a mais simples representação da passagem do tempo. Aniversários fazem a gente refletir sobre a trajetória até aqui. Aniversários fazem a gente refletir sobre o tempo em todas as dimensões. Sobre o valor do tempo e o peso de sua escassez, mal do século. Quando Vinicius Moraes escreveu MEU TEMPO É QUANDO, deixou suspensas interrogações e infinitas possibilidades. Parafraseando o poeta, eu escreveria “Meu tempo é hoje”, concreto, palpável, finito, veloz. É assim que eu me vejo, sempre correndo atrás da agenda que não cumpri, atenção que não dei à minha família como gostaria, dos compromissos aos quais faltei, dos telefonemas que não respondi, da palavra amiga que deixei de dizer na hora certa... hoje, depois de outro hoje, depois de outro ainda mais urgente hoje. E para quê?

Para responder a essa pergunta, abri um espaço na correria e me debrucei com toda calma sobre as reflexões do terapeuta junguiano Roberto Gambini. “Vivemos de maneira maluca”, diz ele. Somos condicionados a nunca parar de acumular. Juntamos de tudo: dinheiro, experiência, conhecimento, sons, doenças, palavras, marcas, traumas... Chega uma hora em que temos que fazer a curva, começar a abrir mão, jogar fora o que não serve, dispensar. Ao nos darmos conta disso, mudamos a nossa inserção no tempo.”

Marcia Neder
Outubro 2008


16/07/2009

O dever de mudar o Brasil

Quem de nós já não ficou desanimada e enraivecida diante daquele Brasil que não funciona, não respeita os direitos do cidadão, não devolve em benefícios eficientes o gigantesco volume de impostos que recolhe da nossa renda? Quem de nós já não fraquejou e disse: “Desisto, este país não vai mudar nunca!”? Eu já. Muitas vezes. Só que esse raciocínio baseado na desesperança está errado. O Brasil vai mudar, sim, mas só no dia em que todos nós tivermos consciência de que essa é uma responsabilidade de cada um.

Não é porque nossos filhos têm o privilégio de estudar em escolas particulares que não somos afetados pela péssima qualidade das escolas públicas. Não dá para tentarmos viver em uma bolha, imunes, em um país que não faz da educação de qualidade um princípio universal e não acena com um futuro para seus jovens.

O ponto de partida para chegarmos a esse país mais justo com que sonhamos é a educação. “Porque é uma dimensão da vida em sociedade que afeta todas as demais. Incide sobre a qualidade da representação política, a distribuição de renda, o desenvolvimento econômico e a justiça social”, diz o ministro da Educação, Fernando Haddad.

CLAUDIA é como nós, mulheres, que queremos fazer tudo ao mesmo tempo, agora. Defesa da mulher é outro de nossos pilares. Por isso, criamos os Fóruns CLAUDIA pela Mulher Brasileira, que vão percorrer o país debatendo os grandes problemas que nos afetam. O primeiro deles, realizado em Porto Alegre, em 2008, foi sobre saúde. Discutiu o stress e a vida moderna, o perigo crescente das doenças cardiovasculares entre nós (sabia que são a principal causa de morte feminina no Brasil?) e prevenção do câncer de mama, que, hoje, tem 95% de chances de cura desde que diagnosticado no início. Os dados são impressionantes. Mais impactante ainda foi descobrir que eu posso reescrever a minha história médica só com uma mudança de atitude.

CLAUDIA, mais que informa, transforma. Quando escrevemos essa frase na lombada da revista é para reafirmar o compromisso de estar na linha de frente de todas as boas causas. E convidamos você a participar também dessa maré irresistível. Mudar o Brasil é um dever, um compromisso, uma missão de todos nós.

Marcia Neder
Setembro 2008


16/07/2009

Irmandade perpétua

Nenhuma de nós tem uma vida perfeita, à prova de dores e perdas. Partilhar experiências é aprendizado e alívio. Na família e nos amigos, o refúgio mais próximo, buscamos amor, referências e incentivo. Ao conhecer a vida de outras pessoas, mesmo aquelas que nem tivemos a chance de encontrar, aprendemos mais sobre nós mesmas, vemos soluções onde havia apenas escuridão. Quando mulheres trocam dúvidas e desafios, formam uma irmandade, na qual se reconhecem e se fortalecem. A escritora Isabel Allende, que viveu a que deve ser a pior das dores, a perda da filha, Paula, aos 28 anos, conta sobre o seu grupo de amigas, que se autodenomina Irmãs da Desordem Perpétua. Elas conversam, dividem os problemas, acendem velas, meditam e jamais perdem o contato, nem mesmo quando viajam. A escritora Paula Taitelbaum defende a ideia de que os amigos a ajudam a escrever o roteiro de sua vida, por meio da companhia constante, das intervenções na hora da necessidade, do apoio incondicional até quando faz bobagem. Amigos são a família que a gente escolhe. A família-irmandade que nos acolhe, alimenta a alma e consola.

Na irmandade de CLAUDIA, onde tantas mulheres falam sobre a própria vida, dividem as lutas e as conquistas, as inseguranças e a coragem, todas nós conseguimos aprender algo novo umas com as outras. Trazer para nossa irmandade a experiência de outras pessoas nos ajuda a priorizar o que é realmente fundamental e a descartar todas as insignificâncias que nos consomem sem necessidade.

Marcia Neder
Julho 2008


05/07/2009

Morda esta maçã!


Quando Eva mordeu a maçã no paraíso, foi uma verdadeira confusão. O éden acabou, Adão teve que ganhar a vida com o suor da própria fronte e Eva passou a ser o símbolo da pecadora, execrada nos milênios seguintes. Mas vamos falar a verdade. Só assim a humanidade caiu na real e passou a andar para a frente. Muitas mulheres tiveram de morder outras maçãs, arder em fogueiras, perder a cabeça na guilhotina, ficar mal faladas, morrer por seus princípios, pagar preços altíssimos para que houvesse, finalmente, um dia que celebrasse as nossas conquistas: 8 de março. Enfim, a redenção de Eva. A escolha lembra um episódio revoltante, ocorrido em Nova York, em 1857, quando um grupo de grevistas de uma fábrica de tecidos que lutava por melhores condições de trabalho foi trancado no prédio, incendiado depois de propósito. Cerca de 130 tecelãs morreram. Mas não em vão. O século 20 testemunhou a consolidação da revolução feminina. Outras de nós continuaram mordendo maçãs para que tivéssemos, hoje, tantas portas abertas. Como ainda há tantas barreiras a ser vencidas neste novo século, haja maçãs a ser mordidas! Portanto, morda a sua, por nossas filhas, pelas novas gerações, como fizeram as bravas que nos antecederam.

Marcia Neder
Março 2008