Guerra para comer?
Se seu filho trava a boca e olha para você com ar de desafio, o melhor a fazer segundo 100% dos pediatras e nutricionistas é não dar bola. É você quem tem de mudar de estratégia para acabar com as batalhas nas refeições e restabelecer a paz à mesa. Siga nossas instruções e a gente garante: ele vai comer direito
Ana Leite
Hora do almoço
Lucas, de 1 ano e 8 meses, senta-se no cadeirão e, fazendo careta, balança a cabeça quando a mãe, a oftalmologista Lucila Nogueira, 33 anos, oferece o prato com um suculento bifinho e abobrinha refogada. "Vai começar tudo de novo!", pensa Lucila, exausta e já sem esperanças de que o filho algum dia venha a comer direito. Se você achou que estávamos contando a sua história, já adiantamos que o final é feliz: depois de ouvir o pediatra, a mãe decidiu que, se Lucas não queria comer, ela não insistiria. O coração estava apertado, mas ela se lembrava das palavras do médico: "Que fique sem a refeição! Já viu alguém com fome recusar comida? No jantar, ele certamente vai comer o que tiver no prato". "E, até o jantar, ele fica sem comer e morre de fome?", havia perguntado a mãe, preocupada. "Isso mesmo", dissera o pediatra. "E nada de bolachinhas no intervalo." Depois de ouvir algumas vezes a garantia de que o organismo de Lucas tinha reservas suficientes para pular aquela refeição, ela resolveu adotar a tática de guerra e logo pôde respirar aliviada. Em cerca de 15 dias, Lucas passou a comer a quantidade adequada de comida, incluindo salada e até a abobrinha para a qual havia torcido o nariz no começo da história. Milagre? Não. O problema se resolveu por dois motivos: Lucas entendeu que a comida deixara de ser uma forma de chamar a atenção da mãe, já que ela não estava mais tão preocupada com o que ou com quanto ele estava comendo; e também porque Lucila diminuiu o grau de expectativa que estava depositando na alimentação do filho. "Admiti para mim mesma que ele não ficaria anêmico nem morreria de fome."
O temor de Lucila é supercomum
"Toda mãe acha (instintiva e inconscientemente) que, se deixar de se alimentar, o filho pode morrer. E ninguém quer correr o risco de perder o filho", explica Claudia Mascarenhas Fernandes, psicóloga de Salvador e membro-fundadora do Infans, Centro de Estudos para o Bebê. A questão é que algumas, embora se preocupem, não dão importância exagerada à falta de apetite ou à recusa de certos alimentos por parte dos pequenos. Encaram a situação como natural e pensam que, na próxima refeição, vão comer melhor. Outras, no entanto, condicionam o desempenho como mãe à alimentação do filho e tornam-se presas fáceis para a manipulação infantil. Comida não é amor
Dissociar comida de afeto é fundamental para acabar com a guerra da refeição. O raciocínio de muitas mulheres é assim: ao alimentá-lo, estou dando uma prova de amor ao meu filho. Se ele recusa a comida, é porque não me ama. Sorrateiro, inconsciente e torturante, esse modo de pensar provoca sentimentos de impotência (afinal, ninguém vai abrir a boca da criança à força para obrigá-la a comer) e de profunda rejeição. Na tentativa de resolver o conflito, a mãe faz qualquer coisa para ver o filho mastigar ("mesmo que sejam salgadinhos e chocolates, pois até isso é melhor do que ficar de estômago vazio", pensam algumas). A criança, muito sensível e esperta, se aproveita dessa vulnerabilidade para chantagear a mãe e comer apenas o que quer.





