Amado e seguro desde pequeno

Mais do que mil beijos e declarações de amor, são os pequenos cuidados do dia-a-dia que informam ao bebê o quanto ele é querido e desejado. Essa sensação vai acompanhá-lo para sempre, ajudando-o a se tornar um adulto autoconfiante. A bola está com você

Suzana Lakatos e Carolina Prado


Acontece com todo mundo: um belo dia você se flagra diante do berço do seu bebê perguntando-se se é mesmo capaz de dar conta do recado de transformar aquele ser tão delicado em um adulto seguro de si, que saiba superar as frustrações da vida e se impor num mundo que a cada dia se torna mais impessoal e competitivo. Só de pensar no tamanho dessa responsabilidade dá um frio na barriga. Pois esse friozinho ainda vai assaltá-la muitas vezes. É inevitável! A boa notícia é que fazer do seu bebê uma pessoa confiante e segura não requer prática, habilidade nem pós-graduação em nada. Essa característica se constrói no dia-a-dia com pequenos gestos e atitudes que transmitem ao pequeno a sensação de ser amado. Entre pais e filhos, a linguagem do amor é intuitiva. Depende de sentimentos sinceros e não se deixa enganar por comportamentos ensaiados ou declarações da boca para fora.Para dizer "eu te amo" As maneiras de demonstrar sentimentos mudam de uma pessoa para outra e engana-se quem pensa que a mãe mais beijoqueira é a mais afetiva. Cada mulher tem um estilo e ninguém deve forçar comportamentos na tentativa de copiar um padrão. "É melhor encontrar a própria forma de comunicação com o filho, seja ela qual for", garante o psicólogo Antônio Carlos Amador Pereira, professor da Faculdade de Psicologia da PUC-SP. "O importante é o interesse e o afeto sinceros, pois bebês e crianças pequenas são muito mais sensíveis do que se imagina. Eles captam emoções que muitas vezes nem os adultos perceberam ainda." A simples presença, o interesse verdadeiro e a dedicação dos pais são as bases desse diálogo amoroso. A criança sente que, aconteça o que acontecer, os pais estarão por perto para ampará-la. É essa noção que desperta nela, desde já, as sementes da autoconfiança necessária para que se torne uma pessoa segura no futuro. "Inversamente, a criança negligenciada nas suas necessidades e sem o referencial de afeto de um adulto está sempre confusa e tensa. Por isso, tem mais probabilidade de se transformar num adulto inseguro", explica Amador Pereira.

Observe, converse, cuide



Ficar de olho no bebê e conversar com ele são os primeiros passos para fazê-lo se sentir amado. "O simples olhar é uma espécie de toque, que transmite muito à criança", ensina a psicóloga Ceres Alves de Araújo, também professora da Faculdade de Psicologia da PUC-SP. De tanto observar o bebê, aos poucos a mãe consegue identificar, por exemplo, se a careta é de dor ou de pura manha. Com isso, atende às necessidades da criança e dá a ela a noção de ser amparada: "Nos primeiros meses, a sensação boa de ser amado vem sobretudo dos cuidados básicos", completa. Também a fala é, desde muito cedo, uma forma de tranqüilizar a criança e reafirmar que ela está no centro das suas atenções e do seu amor. Só de ouvir a voz da mãe, o bebê sente-se amparado pela sua presença e, mesmo sem entender tudo o que é dito, capta as emoções. "Acostumei o Guilherme a ficar mais no carrinho e no berço do que no colo. Mas, para mostrar que estou por perto e deixá-lo feliz, vou conversando e contando historinhas enquanto cuido de outras atividades. É o suficiente - ele fica calmo e em paz", afirma a dona-de-casa Kátia Regina Castro, 27 anos, mãe de Guilherme, 5 meses. De fato, a voz da mãe tem um efeito mágico, mas é preciso ficar atenta às emoções que estão sendo transmitidas. Já reparou que basta aumentar o volume da voz para que o bebê já arme uma carinha de choro? Não se engane: as anteninhas dele estão sempre ligadíssimas e são um radar poderoso para perceber irritações e tensões. Não significa que apenas os filhos criados em ambientes de absoluta tranqüilidade tenham chance de se transformar em adultos saudáveis. "A criança pequena aprende por repetições. Uma instabilidade emocional de vez em quando vai ser captada, mas não ficará registrada na memória por muito tempo. Gritos, brigas e outros deslizes começam a atrapalhar o desenvolvimento emocional do bebê quando se tornam constantes", alerta Amador Pereira.
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