Ah, um homem

Ilustração Suppa

De manhã, toda feliz, ela sai achando que vai passar um ótimo dia. É verão, o céu está azul, a vida é bela. E é preciso muito mais que isso para ser feliz? Pega o carro e presta atenção - enfim - naquele barulho horrendo que havia sido denunciado por um amigo; não, isso não pode ser normal. Resolve tomar uma providência, e é pra já. Passa na oficina daquele mecânico conhecido e se arrepende amargamente, já que o diagnóstico é o pior possível: as coisas vão muito mal. Os nomes das peças danificadas são terríveis e só aqueles seres inacreditáveis - os homens - entendem do que se trata. Suspensão, amortecedores, velas, esses horrores. Que me perdoem as feministas, mas mulheres e homens não são iguais, e nós não nascemos para certas coisas - essas, por exemplo. Mas a crueldade humana não tem limites, e, quando entrega os documentos, outra má notícia: não paga o IPVA há três anos. A brincadeira, incluindo o conserto, vai a mais de 5 mil, o que positivamente ela não merece. Sem coragem (nem dinheiro) para enfrentar essa despesa inesperada, tem uma reação bem feminina: vai trocar de carro. Se alguém pensa que esse é um acontecimento fácil e prazeroso, saiba que é das piores experiências que podem acontecer a um ser humano - a uma mulher, quero dizer. Você já ouviu falar que um veículo 1.0 é totalmente diferente de um 1.8? Que existem carros fantásticos que fazem 100 quilômetros em 20 segundos? (Se os números não são exatamente esses, nenhuma importância.) E a tranca das portas? E aquele controle remoto - mais um para levar na bolsa - que você aperta como se fosse um revólver e quando chega a porta já está aberta? E como foi possível viver sem essas novidades? E como fazer a escolha diante de coisas de tão crucial importância? Ah, como faz falta um homem nessa hora (e em outras também, sejamos justas). Quando está quase resolvendo, mais uma informação: um dos modelos tem tração nas quatro rodas, o outro não, como é difícil a vida. Só não falam da única coisa que interessa: da cor do carro. Isso - acham - é coisa de mulher. E é, graças a Deus. Chega-se, enfim, ao principal: o preço. Mais: entrega seu carro, como está, como entrada e paga o saldo devedor em 12 meses, 24 ou 36? Ou vende o antigo e paga o novo à vista? É nessa hora que sente que de nada serviram as aulas de matemática. Como saber qual das formas de pagamento é a mais interessante? Saber qual a taxa de juros da financeira e quanto o depósito a prazo fixo está rendendo vai além de suas possibilidades. Afinal, ela não passa de uma mulher. Se raspar a poupança, dá para pagar à vista, mas ficar a zero não tem graça nenhuma. E já ouviu tanto dizer que se deve pechinchar que tenta fazer o número: "E que desconto você me dá se eu pagar à vista?" Sabe qual a reação? Nenhuma. Derrubada, humilhada e ofendida, ela se dá conta de que ser mulher continua a ser o máximo, mas em certos momentos um homem faz uma falta daquelas. Em vários momentos, aliás. 

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