Cara Lata de Leite,
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Desculpe a intimidade de escrever uma carta assim, tão sincera, mas sinto como se fôssemos parentes. Minha mãe é Leite, e meu nome de solteira é Fernanda Maria Leite Young. Além disso, convivo com você há mais tempo do que com qualquer outra coisa, vendo-a todo dia, desde pequena, sempre igual, em minha mesa de café-da-manhã. Ajo, portanto, movida pelo coração. Temendo, por isso mesmo, ser mal compreendida.
O motivo desta carta é que notei, outro dia, algo diferente em você. Um retângulo. Com um texto em que o Ministério da Saúde adverte que você não é boa para crianças. E que as mães devem amamentar seus filhos até os 2 anos de idade, no mínimo, se possível até mais. Confesso, fiquei confusa. Sei que você deve ter sido obrigada a concordar em colocar aquilo ali, mas por acaso você conhece as crianças de 2 anos de hoje em dia? São bastante diferentes daquelas do nosso tempo, querida Lata. Boa parte delas já está freqüentando colégios. Algumas, com 3 anos, fazem cursos de inglês, natação, balé e até computação. Claro, estou falando das crianças de famílias da classe média urbana. Mas é para essas famílias que vocês, latas de leite, são destinadas, correto? Então, imagine comigo: o garotinho chega do curso de computação, joga um pouco de videogame; aí a mãe volta do trabalho e ele vai chupar os peitos dela. Ou: a garotinha chega do balé e telefona para uma amiga marcando de ir ver um filme na casa dela assim que acabar de mamar na mãe.
Será que isso é realmente melhor para a saúde dessas crianças? Será que ter uma mente sã não é tão importante quanto ter um corpo são? Será que as deficiências do leite em pó com relação ao leite materno não seriam menos perigosas que os riscos de trauma psicológico? Não sei responder. Mas sei que amamentei minhas filhas até os 3 meses e me senti um traste quando parei. Porque todos me diziam que era melhor continuar - apesar de eu estar exaurida, com os peitos estuporados e a mente desnorteada pelas transformações trazidas pela maternidade. Todos, menos o meu marido, que me apoiou na decisão dizendo que achava muito mais importante, para as meninas, ter uma mãe segura e feliz do que qualquer benefício que o aleitamento pudesse trazer.
Sei que muita gente me execraria pelo conteúdo desta carta, por isso mando-a só para você, amiga Lata, contando com a sua discrição. Tenho certeza de que você entenderá o que estou tentando dizer. Que não estou fazendo campanha contra o leite materno nem a favor das multinacionais. Que estou apenas tentando propor uma nova visão sobre uma antiga verdade. Para que outras mães não venham a sofrer com tanta culpa. E para que outras crianças não venham a sofrer com tantas mães que, depois de passarem 20 ou 30 anos de sua vida consumindo porcarias, são levadas a crer que seus seios são fontes de pureza.






