Elas preferem alta tecnologia a um diamante
Foi-se o tempo em que os diamantes eram os melhores amigos das garotas, como cantou Marilyn Monroe no filme
Lina de Albuquerque
O primeiro botão que Marcela Ramires, 18 anos, aperta quando acorda não é o do despertador. A estudante de moda mal abre os olhos e liga o laptop, que ainda repousa no criado-mudo. Ela apanha o computador e - graças à rede sem fio recentemente instalada no apartamento - sai andando com ele em direção ao banheiro. Entra no chuveiro enquanto o sistema operacional está inicializando (sim, a palavra técnica é essa mesmo, inicializar).
Checar e-mails e navegar por sites de moda são as próximas etapas do ritual incorporado ao café-da-manhã. "Dizem que sou viciada em tecnologia", afirma Marcela, que convenceu as irmãs mais velhas a trocar os cabos pelo sistema sem fio, conhecido como wireless. A estudante conta ainda que não dispensa a companhia do iPod, tocador de MP3, que praticamente faz parte dela, com uma gigantesca seleção de músicas. "Não sei se a tecnologia pode deixar a vida mais interessante ou se ela traz as coisas interessantes para mais perto de nós", diz ela, sempre ligada em tudo. Até na hora de ver TV, a estudante mantém o notebook no colo para conversar no Messenger, o popular MSN. Ela tem mais de 100 contatos, fala com dez amigos ao mesmo tempo. Experimente perguntar a uma pessoa como Marcela se prefere ganhar uma jóia ou um televisor de plasma e adivinhe a resposta. É óbvia, não? Pois essa mesma pergunta foi feita pela operadora de TV a cabo Oxygen Network a 1,4 mil americanas entre 15 e 49 anos. O resultado: três em cada quatro ficariam com a tela de plasma no lugar de uma gargantilha de diamantes. Se tivessem de escolher, 86% trocariam um sapato de grife por uma câmara digital de vídeo. Outros aparelhos de última geração derrotaram de artigos de luxo a viagens de férias. "Fiquei surpresa com o interesse feminino", disse Geraldine Laybourne, presidente-executiva da Oxygen Network, que por sinal é movimentada quase exclusivamente por mulheres. O estudo concluiu que a disparidade tecnológica entre os gêneros está prestes a desaparecer. As mulheres parecem tão bem preparadas para lidar com a alta parafernália como os homens.
No Brasil, onde o celular é o maior objeto da cobiça feminina, a pesquisa despertou alguma desconfiança. "Essa preferência não reflete necessariamente um maior domínio sobre os aparelhos", diz, provocando, um vendedor da Fast Shop, uma das grandes redes especializadas em eletrônicos no Brasil. "Na hora de comprar um celular, a estética conta mais pontos para elas do que os dispositivos tecnológicos agregados, como o bluetooth (conexão que aposentou o infravermelho e permite passar a foto diretamente para o computador)", explica. "As mulheres ouvem a palavra bluetooth e ainda confundem com marca de pasta de dentes. Na verdade, sonham com um equipamento compacto, que caiba na bolsa. De preferência que lave, passe, cozinhe e leve café na cama."
Se o estudo americano estiver certo, o uso da tecnologia deve aumentar entre as mulheres. É só uma questão de tempo para o envolvimento feminino tornar-se tão grande quanto o masculino. Há dois anos, a estudante de publicidade Leyla Cavalcante, 20 anos, nem sabia o que era um HD - o hard disk, ou disco rígido. Hoje, o componente de memória do computador é um dos tantos termos cibernéticos integrados ao seu vocabulário. "Antes eu pensava que alta tecnologia era muita informação para o meu pouco HD", diz. Leyla foi contagiada pelo vírus da informática quando trabalhava numa loja de câmaras e filmadoras. Ganhou dinheiro suficiente para comprar a primeira máquina fotográfica digital, qua ainda mantém. "Registro tudo. Ela sempre me acompanha", conta a jovem, que gasta boa parte do salário em tecnologia. "Minha comodidade está em primeiro lugar. Já deixei de comprar roupas bacanas para modernizar o computador lá de casa com um gravador de DVD." Ela é do tipo de mulher que não esquece alguém, mas "deleta". Não se arruma para uma ocasião especial. Em vez disso, dá um "upgrade no visual".
A administradora Renata Ristow, 28 anos, também se habituou a usar expressões como "deu pau no sistema" ou "o HD travou" quando alguma coisa dá errado. O upgrade na sua esquálida cultura ligada à robótica teve início há seis anos, ao se tornar promotora de eventos da Apple. Renata, como Marcela, morre de amores pelo iPod - que ela usa como agenda e ainda como pen drive, aparelho do tamanho de um dedinho, substituto do disquete, ótimo armazenador de arquivos. O seu iPod pesa menos que uma caixa de CD e tem quase mil músicas inseridas. Um dos programas favoritos da administradora é patinar com ele no parque Villa-Lobos, em São Paulo. Renata acredita que o aparelho acabará seduzindo um batalhão de mulheres se forem confirmados os rumores de que ele se tornará, em breve, um celular. A recente adesão ao telefone por computador, como o Skype, mostra que talvez ela esteja certa, já que mulheres gostam muito de falar. Aliás, os avanços e a automação viraram pauta importante das conversas que Renata tem com o namorado. Por sorte, ele é formado em ciência da computação. O moço já foi alertado: em vez de brincos e pulseiras de ouro e pedras, para ela, presente romântico é... um lindo eletrônico.
A restauradora Ângela Freitas, 50 anos, pensa em trocar o seu Macintosh, um valente computador com interface gráfica, por um laptop Mac Dual. Trata-se de uma novidade que, grosso modo, faz rodar os principais programas do Mac e do PC. Ângela é uma mulher high tech. O curioso é que a sua profissão requer que ela volte a atenção para o passado. No ateliê, ela registra, com uma câmara digital, peças com até mil anos em processo de restauração. Em seguida, transfere o registro para o catálogo no computador. No tempo que passa em aviões - Ângela faz cursos e dá aulas, voando de uma cidade para a outra -, organiza textos e imagens em programas como o Power Point. O hábito de plugar o laptop no ar reforçou a sua fama de macmaníaca. "Não é porque trabalho com obras do tempo do descobrimento do Brasil ou da Idade Média que preciso manter computadores com velocidade de carroça", comenta. "O equipamento facilita a vida. Confio no computador, nunca perdi um só arquivo. Ele me deixa segura e, assim, posso trabalhar tranqüila.
É DIFÍCIL SER HIGHTECH
Mais de uma vez, virei motivo de piada ao procurar um batom e sacar da bolsa um pen drive. Mas confundir agenda digital com estojo de maquiagem tem menos graça. Para quem gosta de tecnologia, é humilhante ainda contar com a ajuda de uma velhusca agendinha da Casio. E como ela me ajuda. Tenho mais de 2 mil telefones armazenados. Já cogitei em dar um salto evolutivo e trocála por um palm top de última hora. Mas não posso transferir os dados porque o meu dispositivo do tempo do onça não tem entrada USB, nascida para facilitar o diálogo entre os aparelhos. As agendas que foram febre na década passada continuam sendo compradas por dureza (um palm custa 20 vezes mais), preguiça ou previdência. Por medo de perder os dados, acabei me tornando duplamente primata: possuo duas agendas jurássicas, uma para uso diário e outra só para arquivo. Também mantenho vida dupla com laptops. Apesar de ter aquirido um LG ultramoderno, me dou melhor com o antigo Fujitsu, movido à manivela. A mobilidade do laptop me permite ter vários escritórios perto de casa. Outro dia, num deles - um café abarrotado de revistas importadas - fui abordada por um adolescente de cabelos arrepiados. Ele queria saber onde comprei um modelo tão compacto e moderno. Quem vê cara não vê Winchester. Para quem está chegando à informática agora, Winchester é a memória, mas pode ser também o coração. Na verdade, o meu lap quebra-galho tem uns sete anos, não comporta suporte wi-fi para conexão sem fio, está com a bateria nos estertores e quase só funciona na fonte. É companheiro fiel, o meu sapato velho. Até hoje o menor e mais avançado notebook que encontrei na praça tem quase o dobro do tamanho e está bem guardado em casa. O pior é que esse brinquedinho caro tende a ficar cada vez mais recluso. A seguradora já me informou que não renova seguro de nenhum laptop com mais de um ano. Nem sempre é vantagem abraçar o último lançamento. Desafio alguém a ter uma impressora Citizen menor que a minha, quase do tamanho de uma régua. Lanço o mesmo desafio a quem encontrar um cartucho de tinta compatível. Simplesmente sumiu do mercado. Sem tinta, a impressora virou encosto de livro. Mas já decidi que, mesmo tendo queda por tecnologia, não vou me tornar vítima da "obsolescência programada". Esse termo eu aprendi com um amigo que freqüenta a mesma loja eletrônica do bairro, o artista plástico Gedley Braga. É ali que fazemos dos vendedores nossos professores. Eu digo que é por curiosidade. Ele diz que é para ter aula de graça. A tal obsolescência, contou Gedley, é uma das canalhices do mercado. Quando o último modelo é lançado, já tem gente criando algum outro para deixá-lo ultrapassado. Malditos sejam. Dá vontade de voltar para os livros. Não cheguei, e nem pretendo chegar, a ponto de ler livros em computadores. Mas comecei a ler O LAPTOP DE LEONARDO (ED. NOVA FRONTEIRA), em que um especialista em interação entre computadores e seres humanos, o americano Ben Shneiderman, convida a ciência da computação a se inspirar na genialidade criativa do renascentista Leonardo da Vinci. Shneiderman garante que vivemos o "Renascimento 2.0" - um período de utopia apoiado no potencial pouco explorado da informática e da internet. Juro que ficaria contente se algum Leonardo II resolvesse o problema de conversão da minha agenda e desse um jeito de fazer a vida útil do meu laptop ter pelo menos a duração da minha vida.
A jornalista LINA DE ALBUQUERQUE, autora desta reportagem, também é alucinada por robótica... e conta sua estreita relação com os aparelhinhos sedutores
FOTOS KARINE BASILIO
PRODUÇÃO SYLVIA RADOVAN
CABELO E MAQUIAGEM SANDRO BORGES, ANGEL




