Vergonha nas escolas

Falta tudo na educação brasileira, mesmo na rede privada: professores bem preparados, investimento no aprendizado e até um currículo mínimo obrigatório que norteie o ensino. Isso só torna mais fundamental sua participação na formação de seu filho - veja como

Suzana Lakatos | Colaborou Sibelle Pedral
Foto Karine Basilio

EscolasNo final de abril de 2007, dois números caíram como bombas no cenário já sombrio da nossa educação: 3,8 foi a média nacional obtida pelos alunos de 1a a 4a séries avaliados pelo índice de desenvolvimento da educação básica (Ideb), indicador recém-criado pelo Ministério da Educação e calculado por município com base no rendimento, na repetência e na evasão; pior ainda, no ensino médio esse indicador ficou em 3,4. O ideal, para alinhar o Brasil aos atuais padrões internacionais de ensino, seria a nota 6, numa escala de 0 a 10. Os resultados desastrosos são parte de um cenário que vem piorando nas últimas décadas e finalmente fez o governo federal disparar um programa ambicioso, o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), que pretende injetar no setor 8 bilhões de reais nos próximos quatro anos e, por meio de um amplo pacto nacional, garantir que, até o final de 2021, as crianças das primeiras séries se aproximem da média internacional. O que, convenhamos, já é apenas tolerável.

A falta de qualidade no ensino brasileiro já desperta a atenção internacional. O economista Albert Fishlow, da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, diz que o Brasil é o único país do mundo em que 50% dos que completam cinco anos de educação básica continuam classificados como analfabetos. E não se iluda: embora o problema atinja mais fortemente a rede pública, também os alunos de elite vão mal, como mostra o desempenho brasileiro no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), a mais conceituada avaliação do ensino, promovida pela Or ganização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e aplicada alunos das redes pública e privada. Em 2000, a ênfase recaiu no aprendizado da própria língua e na comunicação, e o Brasil ficou em último lugar entre os 33 países avaliados. Em 2003, participaram 41 países, e novamente os estudantes brasileiros ficaram na lanterna. O foco foi matemática e ninguém do Brasil atingiu a categoria superior de desempenho. Pelo contrário: foi necessário criar a classificação especial "abaixo de muito fraco" para poder incluir 54% dos nossos alunos! Um vexame nacional, recebido com silêncio e indiferença pelo governo e pela sociedade. As provas acontecem a cada três anos e os resultados de 2006, cujo teste privilegiou ciências, ainda não estavam disponíveis até o encerramento desta reportagem.

Não adianta procurar nas crianças e jovens a causa do desastre. No artigo ENSINO BÁSICO, SILENCIOSA TRAGÉDIA NACIONAL, publicado no jornal O ESTADO DE S. PAULO, o professor de estatística da Unicamp Sebastião Amorim não hesita em atribuí-la a "uma dieta acadêmica rala, que está condenando nossas crianças à subnutrição intelectual crônica". Será que a culpa é do cardápio, ou seja, do currículo que as nossas escolas servem aos alunos? Embora não garanta qualidade, o currículo é importante para assegurar um conteúdo básico para todas as instituições", explica Ivonildes Milan, diretora pedagógica do Colégio Augusto Laranja, em São Paulo. Para o economista e professor Cláudio de Moura Castro, presidente do Conselho Consultivo da Faculdade Pitágoras, em Minas Gerais, o problema é justamente a falta de definição de uma base comum. "O Brasil não tem um currículo. Tem os Parâmetros Curriculares Nacionais, amplos, complicados e vagos. Em países como Inglaterra, Alemanha e França, sabe-se exatamente o que ensinar em cada disciplina. Aqui, isso não está escrito em lugar nenhum, como se cada escola tivesse o direito de decidir o que o aluno vai aprender", afirma ele.

Para você entender: no Brasil, o assunto é regulado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, sancionada em 1996. Paralelamente, houve a criação dos Parâmetros, que definem os objetivos a ser alcançados em cada área - mas não o que precisa ser ensinado para atingi-los. Essa série de documentos foi transformada pelos conselhos estaduais de educação em regulamentações, que estabelecem quais áreas são obrigatórias e quais são optativas. É em cima disso que cada escola prepara sua programação para cada série.

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