Mudança de rumo na carreira

Para muitas mulheres, a chegada do filho traz à tona novas necessidades e talentos e pode ser um impulso poderoso para promover uma virada na vida profissional

Noelly Russo | Foto Norbert Schaefer/Zefa/Corbis/Latin Stock

A rotina da empresária Adriana Haguenauer, de 35 anos, do Rio de Janeiro, sempre foi puxada. Sua formação em economia, com mestrado em administração, levou-a ao posto de consultora de grandes empresas, como a Telemar e a IBM. Sua vida era pautada por longas reuniões e viagens constantes. E foi em uma dessas jornadas que uma descoberta a pegou de surpresa: estava grávida.

Logo ela notou que manter aquele ritmo depois do parto a privaria de passar o tempo que gostaria perto do bebê. Resolveu, então, buscar uma alternativa profissional que fosse compatível com seu novo momento de vida. Sem pestanejar, antes mesmo do final da gravidez, abriu mão dos postos que ocupava e decidiu curtir os preparativos para a chegada da pequena Joana, hoje com 2 anos.

Enquanto pesquisava pela internet produtos diferenciados para montar o enxoval da filha, percebeu fque as mães americanas e européias dispunham de uma diversidade de soluções muito maior do que as brasileiras. Bastou isso para que sua mente empreendedora vislumbrasse a chance fde se dedicar à importação e distribuição de produtos infantis. “Foi assim que descobri a oportunidade de desenvolver um negócio diferente, mas que tem tudo a ver com o momento que vivo agora e, ao mesmo tempo, me permite usar as ferramentas e os talentos desenvolvidos durante anos na minha carreira anterior”, conta ela.

A hoje empresária está duplamente realizada com a escolha que fez, embofra reconheça que a decisão exigiu coragem. “Eu tinha um bom emprego e um bom salário. Mas estou feliz com a guinada que dei. Agora, dirijo meu próprio negócio e tenho o escritório em casa, sem chefe nem horários rígidos. Além disso, nada substitui o grande prazer de buscar a Joana no colégio todo final de tarde”, afirma Adriana.

Como ela, muitas mulheres aproveitam a gravidez e a chegada do bebê para promover mudanças na vida profissional, ou porque andavam insatisfeitas com a carreira, ou porque descobrem em si novos talentos ou simplesmente porque querem uma rotina flexível e tempo para se dedicar ao filhote. “Essas são as mães pós-modernas. Elas pertencem a um grupo de mulheres que já não se sente na obrigação de competir acirradamente no mercado de trabalho com os homens e se permite aproveitar a maternidade em sua plenitude”, diz a psicóloga Sheila Skitnevsky Finger, uma das coordenadoras do projeto Maternidade na Modernidade, em São Paulo, criado para orientar mães no caminho da volta ao trabalho em condições que elas elegeram como ideais.

De acordo com Sheila, tem aumentado o número de mulheres que, embora não aceitem a limitação a que estavam submetidas as nossas avós – de dedicação integral à família –, também não se deixam seduzir pela perspectiva de fazer da carreira o centro das suas vidas. “A geração que hoje está entre 30 e 45 anos cresceu ouvindo que precisava ser bem-sucedida profissionalmente e chegar ao topo das suas profissões a qualquer preço. Vigorava a idéia de que cuidar de casa e filhos tinha pouco valor e que a jornada dupla era um preço aceitável para o sucesso. Atualmfente, muitas mulheres buscam um meio-termo e estão transformando o mercado de trabalho. Há uma pressão crescente para que as organizações ofereçam alternativas que compatibilizem maternidade e atuação profissional”, analisa a especialista.

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