Ano novo sem sutiã

Danuza LeãoEram três mulheres, de idades diferentes, na noite de réveillon. Uma delas tinha desbravado os caminhos da emancipação, mas sem saber o que estava fazendo; como andava ocupada demais vivendo sua vida, não tinha tempo nem paciência para pensar nas lutas femininas. Viveu do jeito que quis, sem teorizar nem rasgar o sutiã – até porque nunca usou nenhum. Praticou profundamente a liberdade; às vezes sem medo, outras apavorada, mas sempre fazendo tudo o que tinha vontade. Os anos passaram, a vida mudou, ela também. E, por força das circunstâncias, viu-se ela mais as outras duas – bem mais novinhas – procurando um táxi às 4h30 da madrugada do dia 1º de janeiro.

As duas jovens têm maior consciência de seus direitos. Sabem que são livres e não esperam por homem algum para tomar decisões ou escolher o que vão fazer à noite – ou o que vão fazer da vida. Quando nasceram, o caminho já estava aberto, mas, curiosamente, as dúvidas e os desencontros que acontecem em suas histórias são exatamente iguais aos da mais velha; aliás, aos de todas as mulheres.

As três podem tudo, tanto que foram às festas que quiseram, dançaram à vontade, foram paqueradas, cortejadas, azaradas e saíram sozinhas, por escolha própria. Cada uma delas, lá no fundo do coração, talvez tivesse preferido romper o ano andando numa praia de mãos dadas com um príncipe encantado, mesmo provisório, que durasse apenas aquela noite. Mas os príncipes estavam em outras galáxias, e elas ficaram rindo, brincando e procurando um táxi – mas sozinhas.

O táxi não aparecia e alguns alegres italianos passaram fazendo gracinhas, mas não foram correspondidos. Começou a chover, uma chuva fininha, e uma delas foi logo falando que deviam estar muito felizes, pois era isso o que queriam: chegar em casa a qualquer hora ou nem chegar, sem ter a quem prestar contas. Mas é caso para refletir: afinal, foram tantas as passeatas, tantos os artigos publicados na imprensa, tantos os livros escritos, para terem o direito de estar de madrugada, sozinhas, procurando um táxi? Enquanto isso, uma bonitona que nunca lutou por liberdade alguma saiu de uma festa com o marido, que foi buscar o carro para que ela não pegasse chuva. As três continuaram esperando, passaram de novo os italianos, e a bonitona  pensou: “Ah, se eu estivesse sozinha...”

Páginas: