Dinheiro é bom: mas dá para viver sem? Dá, desde que não seja pouco demais. Eu já vivi com o essencial. Aprendi a fazer minhas unhas, cabeleireiro nem pensar. No auge do calor, ligava o arcondicionado antes de dormir e só entrava no quarto quando ele estivesse gelado. Aí, desligava o ar, dormia no paraíso (e acordava no inferno). Aproveitava para fazer dieta: comecei a ir à feira, conheci legumes que nem sabia que existiam e que eu fazia na panela de vapor, sem azeite extravirgem nem vinagre balsâmico. A saúde ficou maravilhosa, e tanto me acostumei à nova maneira de comer que não podia nem ver comidas temperadas. Compras estavam fora de cogitação, mas, como sei costurar, abria um decote num vestido, uma fenda numa saia e estava sempre bem; não elegantíssima, mas, como tenho cara de rica, tudo combinava. Fui infeliz nesse tempo? Nem um pouco, porque tenho sorte: eu me adapto a quase tudo sem problema.
Mas que com dinheiro a vida fica melhor, lá isso fica. E a melhor coisa do dinheiro é você não pensar nele, usar o cartão de crédito sem precisar fazer contas, se quiser viajar é só telefonar e marcar a passagem... Sofre-se – porque rico também sofre – por várias razões, mas não por falta de fundos. É confortável.
Quando se está só, a gente se vira; mas, quando um casal tem que baixar de padrão, as brigas são inevitáveis. Ela acha que, se não pode mais ir ao shopping com seu carrão, é culpa dele, que não soube lidar bem com o dinheiro; e ele acha que, se está duro, é por ter liberado o cartão de crédito para ela, que gastava como uma princesa árabe. Não existem mais Amélias neste mundo.
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