A vida é aventura
"Um dia, falei para um surfista que queria aprender. Na hora, ele pegou a prancha e começou a me ensinar" A surfista Fusae Nishida
A história de Fusae Nishida Uramoto, 80 anos, confunde-se com a saga da imigração japonesa no Brasil. Perdas e doenças não abalaram sua vocação para a felicidade 
em Santos (SP)
Laís Duarte
Manhã de céu nublado. O vento sopra frio nas praias de Santos, litoral paulista. Quando a maré se acalma, uma turma de surfistas sai da água. Entre tantos jovens, uma figura impressiona: Fusae Nishida Uramoto, 80 anos, 1,50 metro de altura, cabelos grisalhos. Ela conhece bem essa praia. Em maio de 1933, o navio que trouxe sua família do Japão aportou na cidade. O casal Nishida, os oito filhos e dois tios vieram para o Brasil em busca de dias melhores. Na chegada, duas filhas morreram vítimas de coqueluche. Fusae, a caçula, tinha 3 anos e ainda se lembra do choro da mãe. A esperança de uma vida nova deu lugar à dor e à incerteza.
Os estrangeiros foram para uma fazenda em Ribeirão Preto (SP) cuidar das lavouras de algodão, café, arroz. O fazendeiro fornecia mantimentos, mas descontava-os dos salários. No fim, ninguém recebia nada. Minha mãe dizia que éramos como escravos”, recorda. Fusae era muito pequena e, nesse período, foi poupada da lida no campo para ir à escola, que frequentou até 1939. Quando explodiu a Segunda Guerra, Brasil e Japão estavam em trincheiras opostas. “A polícia vigiava os japoneses. Tínhamos medo de sair de casa”, revela. Após anos de trabalho, a família Nishida conseguiu comprar um pequeno lote em Cruzeiro do Oeste, no interior do Paraná. “Os guardas, porém, diziam que não tínhamos autorização para construir. Às vezes, dormíamos na chuva. Nos tratavam como inimigos”, conta Fusae.
Quando a guerra acabou, em 1945, Fusae, já adolescente, voltou para a escola. Na 5ª série, precisou abandoná-la para ajudar no sustento da família, mas o corpo miúdo não aguentou a labuta no campo, sentia dores insuportáveis. Flexível, ela mudou de ofício, tornou-se cabeleireira. Aos 27 anos, soube que uma rádio de Londrina procurava locutoras que falassem japonês. Lá foi Fusae se comunicar com os imigrantes. O emprego, que para ela era motivo de orgulho, preocupava o pai. “Eu tinha 31 anos, ele temia que eu ficasse solteira”, conta. O senhor Nishida tratou de arrumar um noivo para a filha. Em 1961, subiu ao altar de braço dado com Haruwoshi Uramoto. O filho Jorge nasceu dez meses depois, mas a família teria dias difíceis. Acometido por uma úlcera grave, Haruwoshi perdeu o emprego. Em busca de tratamento, os três mudaram para São Paulo, onde Fusae levantava às 4 horas da manhã para fazer pastéis. Haruwoshi foi operado e melhorou, mas o pequeno Jorge padecia com bronquite. Para a recuperação do garoto, um médico recomendou a mudança para o litoral. “Escolhi Santos porque foi minha porta de entrada no Brasil”, explica Fusae. Era 1970. Vendendo pastéis nas ruas, a família economizou e comprou uma lanchonete. Quando se aposentou, Fusae passou a admirar os surfistas no mar. “Um dia, falei com um deles que queria aprender. Na hora ele pegou uma prancha e começou a me ensinar.” Aos 72 anos, ela pegou a primeira onda e não parou mais. O professor é ainda Cisco Aranã, surfista com décadas de praia. Foi uma surpresa. É difícil uma mulher se arriscar no surfe, ainda mais uma senhora”, diz ele. Dois anos depois, a aluna já estava de pé sobre um longboard (uma prancha bem maior que ela). “Eu não sonhava chegar tão longe. O esporte me dá alegria”, festeja. Mais do que atleta, tornou-se exemplo. Aos 77 anos, decidiu apreciar o mar de cima e pagou 100 reais por seu primeiro voo de asa-delta. Aos 78 anos, para desespero da família, contratou um professor de skate, de 20. Comprou um capacete e passou a “surfar” no calçadão. Em agosto, dona Fusae completou 80 anos. Diz que não sente o peso da idade nem permite que as dores nos joelhos – marcas do trabalho na lavoura – atrapalhem. Para Fusae, a felicidade não tem mistério: “Cada pessoa escolhe ser feliz ou não ser. Minha vida sou eu quem faço. E tenho muitas coisas novas para começar”.
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