100 mães e filhas conversam sobre sexo

Ouvimos 50 duplas de todo o Brasil para investigar como anda esse diálogo e encontramos emoções, surpresas, silêncios, queixas, sintonias e dificuldades. Com o resultado em mãos, especialistas fazem um diagnóstico e apontam caminhos para aproximar mães e adolescentes em  busca de uma vida sexual mais feliz, prazerosa e segura

Sibelle Pedral/Reportagem Alessandra Roscoe, Aline Rochedo, Andrezza Duarte, Luciana Cavalcante e Simone Serpa

Colocamos em campo cinco repórteres, uma em cada região do Brasil, para investigar como anda o diálogo sobre sexo entre mães e filhas. Foram 100 entrevistas, 50 mães e 50 filhas, em Belém, Brasília, Porto Alegre, Salvador e São Paulo, envolvendo garotas de 10 a 18 anos, ouvidas separadamente das mães. Todas responderam aos mesmos questionários, um para cada grupo. Tabulados os resultados, o quadro que surge é impressionante: em apenas uma geração, as mulheres conseguiram transpor o abismo entre a educação sexual que receberam das mães – praticamente nenhuma – e a que estão transmitindo às filhas – que está longe de ser ideal, mas representa um avanço claro. “Houve uma mudança drástica de uma geração para outra. Essas mães foram muito reprimidas”, observa a educadora sexual Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan, em São Paulo, que orienta sobre sexualidade. A pesquisa de CLAUDIA revela que 86% das mães afirmam conversar sobre sexo com as filhas. No entanto, exatamente a mesma proporção jamais falou sobre sexo com as mães. Gente como a professora Renata Kfouri, 43 anos, de São Paulo, mãe de Victoria, 13. “Minha mãe era professora de educação sexual, mas nunca conversou sobre sexo comigo. Ela me ensinava a teoria e mostrava livros. Não havia intimidade”, lembra Renata. Ou experiências ainda mais radicais, como a da jornalista Iris Cary, 43, de Brasília, mãe de Naomy, 15, e Tainá, 14 anos. “Quando eu soube, por amigas, o que era menstruação, por volta dos 12 anos, duvidei que minha mãe menstruasse, e mais: que fosse capaz de me esconder isso. Passei a maior vergonha diante do grupo.” Essas mesmas mulheres, e tantas outras, tomaram a decisão de não repetir a história com as filhas e estão mudando um panorama dominado há séculos pela ética judaico-cristã, que sempre guardou para o sexo os piores epítetos: sujo, pecaminoso, útil apenas para a procriação. Enfrentam também, com relutância, a expectativa social para a vida sexual de meninas e meninos. “Os pais encaram que a menina ficou mocinha na menstruação. Já o menino virou rapaz quando transou. Percebem a sexualidade das filhas pela biologia e dos filhos pelo viés do prazer”, compara o professor de educação sexual Marcos Ribeiro, autor de Conversando com Seu Filho sobre Sexo (Editora Academia de Inteligência). São passos largos, e complicados para a maioria. “A conversa não foi nem é fácil para mim até hoje”, admite a dona de casa gaúcha Laura Badia Brito, 49, mãe da estudante Fernanda, 17. Na raiz da dificuldade, está a bagagem que trazem de casa. “Essas mães cresceram ouvindo: Tira a mão daí porque é feio’ ou ‘Feche as pernas quan­do sentar porque já é uma mocinha’”, afirma Marcos. Falar abertamente sobre sexo é um processo que ainda vai demorar duas ou três gerações para se consolidar.”

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